sábado, 5 de abril de 2008

Julieta e Romeu

JULIETA & ROMEU

Uma adaptação da obra “Romeu e Julieta” de William Shakespeare.

Belém, Icoaraci, outubro de 2006.

Ricardo Torres

PRÓLOGO

PRIMEIRO ATO

CENA I

Dois servos entram a conversar.

GREGÓRIO- Sansão, não podemos agüentar desaforo!

SANSÃO- Claro, Gregório, não somos carregadores.

G- Estou falando de não aceitar ofensa!

S- Isso! Não aceitamos presentes de qualquer um!

G- E se tu visses um Montecchio?

S- Ah!...Eu não aceitaria presente nenhum deles.

G- Os montecchio são cães!

S- É, Cães! Eu lato para eles ...Au! Au!

G- Ei! Aí vem um deles!

Entra um outro servo. Sansão late para ele.

SANSÃO- Au!Au!

SERVO MONTECCHIO- Estás latindo para mim, senhor?

SANSÃO- Estou latindo.

SM- Mas, é para mim, senhor !?

S-Se eu disser que sim, vou preso? (pergunta a Gregório)

GREGÓRIO- Sim.

(Sansão balança a cabeça negando).

SM- Queres brigar, senhor?

S- Nããão...

SM- Pois, aqui estou.(começa a briga, com empurrões, trapalhada e gritaria).

Chega outro servo e grita.

- Capuletos! ou melhor, servos de Capuleto! ou melhor, covardes!

Chegam servos das duas famílias, e por fim, os chefes das mesmas. E os cidadãos reclamam.

CORO - Aí vem, o velho Capuleto! Aí vem o velho Montecchio!Empurrões! Confusão! Gritos! Pavor!Fora Capuletos! Fora Montecchios!

Entra o Príncipe.

- Vassalos! Bundões! Meninos maus! Inimigo da paz! Banham espadas com sangue de vizinhos! É a terceira vez que brigam como gangues e acabam com o sossego de todos! Da próxima vez serão punidos com a morte na forca.

Entra a Sra. Montecchio.

- Alguém viu Romeu? Ainda bem que meu filhinho não está aqui...

CENA II

Romeu, choroso. Entra Benvólio.

R- Ah! Meu espírito se arrasta pelas horas, carrego a tristeza nas costas como um caracol. Quem eu quero não me quer!!!

B- Romeu! Tanta mulher por aí dando sopa!

R- Mas eu só enxergo uma...(passa uma garota rebolando e ele dá uma boa olhada).

CENA III

SR CAPULETO – Vai, cabeça, convida as pessoas desta lista para nosso grande baile, devemos agradar o príncipe.

Servo sai, olha a lista e começa a tentar soletrar.

GREGÓRIO- Si-so-ba-ma-le-ti-ca-ah! Agora lascou-se, eu não sei ler. Tenho de arranjar alguém pra decifrar.

Passa Romeu.

G- Ei, rapaz. Tô fazendo uma pesquisa sobre leitura. Tu sabes ler?

R- Claro.

G- Então vá, prova, lê esta lista.

R- Amadeu Calisto e família. Pode comemorar! Você foi convidado!

Estrúbulo Saavedra Pinheiro e sobrinha.

Rita Amaralis e papagaio. Você foi convidado!

Lorenzo Hebert Rodrans. Pode comemorar!

Ivanu Terno de linhaça

Tostão de Araújo Cruzeiro.

Raimunda Favacho , pode comemorar! Você foi aprovada! Você passou ...

É ... Foi convidada pra festa do... do...

G-Capuleto, isso mesmo. É, você leu tudo certinho, mesmo. Me dá a lista.

R- Espera aí, a Raimunda vai estar lá!?

G- Vai, e se tu não fores amigo de Montecchio, apareça lá também, vai ter muita comida de graça.

R- Demorou.

CENA IV

Festa na casa dos Capuleto. Entram Romeu e Benvólio.

ROMEU - Festão.

BENVÓLIO- Só.

Romeu avista ao longe uma linda moça, junto à Ama. O garçom passa e Romeu indaga.

ROMEU- Quem é aquela Princesa?

GARÇOM- Não sei, senhor.

R- Realmente, ela está de máscara. Mas, se mesmo assim sua beleza encanta, imagina. Ela é como um anjo, será que doeu quando caiu do céu ou tinha pára-quedas. Será que ela gosta de brigadeiro? Qual será seu signo? Ela desliza, desliza no ar (Julieta começa a dançar brega) como uma tampa de margarina caindo. Não, não, como uma ficha de refrigerante retirada...Melhor, ela se parece com uma jóia feita de sol, iluminando a noite... égua, onde foi que li isso?

BENVÓLIO – Será por causa desse sol que está esse calor?

TEOBALDO (num outro canto) – Ei! Aquele não é o paspalho do Romeu!

SR. CAPULETO – Não, parece que é o Romeu mesmo.

T- Vou matá-lo.

SR. CAPULETO- Na-na-ni-na-não! Tá doido,tá doido, tá doido? Deixa, ele está se portando como um cavalheiro (Romeu tira meleca do nariz, limpa na própria roupa e coça o saco, tudo isso olhando pra Julieta, que o observa curiosa), nem comeu muito.

T- Isso não vai terminar bem. Ele vai dançar nessa.

Romeu aproxima-se de Julieta. Toca a mão de Julieta.

R-Se minhas mãos sujam as tuas, quisera eu resolver com um toque de meus lábios (beija sua mão).

JULIETA- Não, Senhor mendigo (pois assim está fantasiado Romeu), tuas mãos são macias e educadas. E mais, mãos de princesas são para tocar mãos de súditos.

R- E as princesas têm boca?

J- Claro! Como iriam falar? Elas têm boca para dar ordens.

R- Ordena, então, que os lábios façam o que as mãos fazem (beija Julieta).

J- Mas, tu me contaminaste com a saliva do povo. Ordeno que resolvas isso.

R- Ah! Então, devolva-me minha pobreza (beija-a de novo).

J- Beijas como um nobre...

R- Não diga que beijo como nobre, pois só os pobres beijam bem, pois não têm vergonha de beijar.

AMA- Julieta, passa pra dentro, tua mãe tá te chamando!

ROMEU – Quem é a mãe dela?

AMA- Ora a dona da casa.

R- Cacilda! Minha vida nas mãos de meu inimigo.

A- O quê?

R- Nada, nada...

JULIETA (para a Ama)– Quem são aqueles rapazes?

A- Parentes do Montecchio.

J- E aquele que não dançou? Vai lá, pergunta o nome dele.

(Ama vai, e quando volta...)

A- É Romeu, filho do velho Montecchio.

J- Não! Meu amor é meu ódio! Vi o amor cedo e conheci tarde.

CORO – Agora, morreu o antigo encanto, e a paixão tomou tudo. A antiga beleza perdeu-se e no seu lugar os amantes perdem-se no olhar um do outro. Mas, inimigos não podem se enamorar nem ficar. Só que o amor cria fugas, inventa esconderijos para escapar da tirania, e as loucuras ficam doces.

SEGUNDO ATO

CENA I

Romeu pula o muro e se esconde por trás do arbusto para observar Julieta.

ROMEU – Quem ri das feridas nunca se esbrechou. Mas... O que é isso? (sai Julieta à janela).O sol nascendo a essa hora da noite? Ah, é ela que vem à janela. Poxa! precisava vir com a cara cheia de creme? Não importa, a lua inveja Julieta, pois tem mais buracos na cara que ela. Mas, ela fala...

J- Ai de mim!

R- Oh! Que mãozinha linda, que tatuagem... Ei! Tá muito saidinha essa Julieta. Mas, que anjo...

J- Ó, Romeu, Romeu! Sai de casa e muda teu nome. Diz que me ama e eu deixo minha casa e deixo de ser amamãezada.

Romeu fica indeciso sobre mostrar-se ou não à Julieta.

R- Agora eu falo.

J- Teu nome é meu inimigo, mas não tu. O que é teu nome, Montecchio??

R- Eu...

J- Cala-te! Estou falando sozinha........Se a rosa tivesse outro nome não continuaria tendo o mesmo perfume e custando caro? Romeu, deixa teu nome e toma-me.

R- Eu tomo! Meu nome agora é amor!

J- Quem é!?

R- Não digo meu nome, que é teu inimigo.

J- É Romeu! Como chegou aqui? (Romeu sobe até a sacada)

R- As asas do amor, e uns arranhões no joelho.

J- Romeu, tu me amas?

R- Juro.

J- Não jura que é pecado.

R- Então disconjuro!

J- Oh! Não me amas.

R- É claro.

J- Mas é de noite.

R- Meu amor, que a noite nunca acabe.

J- Mas, já me chamam lá dentro.

R- Diz que está na privada.

J- Não dá, o banheiro é lá embaixo.

R- Então, tchau. Boa noite.

J- Vai, depois a gente se fala.

R- Boa noite.

J- Boa noite.

R- Mil vezes boa noite.

J- Boa, boa, vai!vai! égua, coisa chata.

CENA II

Romeu vai falar com o Frei.

FREI – Cadê aquela tristeza, rapaz? Já está com outra donzela?

ROMEU- Se ela é donzela, não me interessa. Eu a amo, e ela é linda.

F- Romeu, juízo Romeu.

R- Ah, Frei Lourenço, o amor não segue conselhos.

F- Por isso faz burrada.

R- Burros são lindos animais de Deus.

F- Cuidado, essa pode te botar chifre também.

R- Oh, os bois são fortes e magníficos.

F- Senhor! Esse enlouqueceu de novo. E é doidice pior que a outra .

R- Aí vem ela.

F- Ma...Mas... É Julieta Capuleto!

R- É ... Meu amor.

F- Dois malucos. E eu de laranja na história.

R-Romeu – Frei, case-nos.

F- Quê que é isso!?

(Esta parte é cantada).

JULIETA – Seu Frei, eu quero me casar.

F- Oh, minha filha, você diga com quem.

J- Eu quero me casar com o Romeu.

F- Com o Romeu você se casa bem

J- Por que, Seu Frei?

F- O Romeu é leso que nem tu, e vai ter que agüentar tatu também.

CENA III

Casamento.

FREI – Que o céu sorria, que a terra não nos faça chorar. Marido e mulher, não comem na mesma colher. Bebem da mesma água, mas cada um na sua taça. Fazem compras, mas o marido é que paga. Tu, Romeu, aceita a figura da Julieta para amá-la e aturá-la para sempre?

ROMEU- Para sempre é muito (Julieta o belisca). Ok! Ok!

F- E tu , Julieta, te serve este traste... epa... Romeu como legítimo esposo até que a morte finalmente os separe, e não sei que tem mais lá?

JULIETA- Yes.

F- Então, tá então... Eis que sois agora uma só família, e uma só despesa. Deus os abençoe.

CENA IV

Entra Mercúcio Montecchio. Depois chega Teobaldo Capuleto.

TEOBALDO – Eia, Montecchio. Posso lhe dar uma palavra?

MERCÚCIO- Uma palavra? Não, quero mais que isso.

T- Está afim de um beijo, Mercúcio?

M- Dê um selinho em minha espada,Teozinho.

Brigam. Em seguida chega Romeu. Mercúcio está morrendo.

ROMEU- Meu amigo, Mercúcio, que há?

MERCÚCIO- Um ferimento leve.

R- Ah! Então até mais tarde.

M- Não, Romeu! Estou indo, estou indo!

R- Para onde?

M- Estou morrendo, seu paspalho!

R- Coração?

M- Espada.

R- Quem foi? (mercúcio aponta Teobaldo com o bico).

R- Teobaldo! Rato fujão! (Corre atrás de Teobaldo). Quero vingança.

TEOBALDO- Infelizmente, a vingança acabou. Temos apenas lâmina decepadora de cabeças.

R- Verme...

T- Ei! Eu ouvi isso.

R- Então, junta-te à alma de Mercúcio.

Teobaldo cai morto. Entra o Príncipe.

PRÍNCIPE- Quem fez esta bagunça toda?

CORO – Foi ele! Não, foi ele! Ele! Foi! Não! Foram Romeu e Teobaldo!

P- Porque foi o único assassino a sobreviver, Romeu vai ser exilado. Fora Romeu!

TERCEIRO ATO

CENA I

Quarto de Julieta

AMA – Minha senhora, a tragédia caiu sobre nós. Teobaldo, teu primo, passou dessa pra melhor.

JULIETA – Ficou rico?

A- Não, bobona, foi assassinado!

J – Quem o fez?

A- Romeu, e este foi banido da cidade.

J- Miséria, a minha alma está feliz e envergonhada com a vida de meu amor.

Entram Senhor e Senhora Capuleto.

SR CAPULETO – Eis aqui, minha filha, o teu noivo que escolhi.

JULIETA- Que é isso, pai?

SRA. CAPULETO – Ora, Julieta, Paris é de família nobre e rapaz honesto.

J- E o kiko?

SR. CAPULETO – Está decidido. Casas querendo ou não, que o assassino já não está na cidade.

CENA II

Julieta e Frei Lourenço.

F- Aqui está Julieta, este remédio é uma imitação da morte. Chega em casa, aceita teu noivo , depois toma isso e deita. Após teu sepultamento, acordarás e fugirás com Romeu.

J- Como ele saberá.

F- Mandei um menino entregar-lhe um bilhete.

CENA III

Quarto de Julieta. Entra o seu pai.

SR. CAPULETO – E aí, casarás com Páris?

JULIETA- Se é para bem do bolso e felicidade desse bundão, diga a todos que fico, aliás, caso.

Julieta fica só e toma o remédio. Em seguida, sua mãe entra.

SRA. CAPULETO- Ai de mim!

SR. CAPULETO– Onde dói, mulher!?

SRA- No peito, na alma!

SR- É esse sutiã apertado. Eu te disse.

SRA- Nossa filha está morta,

SR- Sobre a mais linda flor de meu jardim caiu o mais frio terror, e sobre mim o castigo pior.

QUARTO ATO

CENA ÚNICA

Enterro de Julieta. Depois, saem todos.

Em seguida, aparece o menino de recado, brincando bola, sem ligar para o bilhete que tinha de entregar.

Entra Romeu na catacumba, se aproxima do corpo de Mercúcio, e só depois avista Julieta.

ROMEU- Neste veneno, minha vida vai embora. Mas, já estava morto longe de minha senhora. Não é possível...Julieta! Meu amor, eis que me encontrarei contigo...Será que há vida após a morte? É, mas já que eu tô aqui mesmo... (toma o veneno).

Acorda Julieta.

J -Romeu, dormiu me esperando, meu amor. Mas... Oh! Não! O sono eterno! Uma faca, Uma espada! Ei! Com que ele se matou?

R - Com veneno, besta... (fala Romeu quando Julieta vira-se chorando).

J - Ah! Foi veneno, sinto o cheiro. Pô, que mau hálito Hein! Romeu. Estavas exilado no lixão, era?

Tapando o nariz, beija Romeu sugando-lhe o veneno. Morre Julieta, estrebuchando.

Entra Frei Lourenço.

F – Que Tragédia! Mas não era pra ser comédia professora!? Morreu, morreu. [baixo: antes eles do que eu...]. Deus os tenha jovens amantes, pois o mundo não lhes compreendeu.

Os corpos são carregados até a praça central.

Todos chegam comovidos. Entra o Príncipe.

Príncipe- O ódio das famílias mata a flor que acaba de desabrochar. A insensatez da violência foi maior e a paixão feneceu.Mas, o certo é que jamais houve história de amor tão triste e maluca como esta de Julieta e Romeu.

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